Tem uma cena que quase todo mundo já viveu. Você está num lugar com sinal cheio, a internet voando, abre um app, tudo carrega. Aí decide ligar para alguém e, por um segundo, parece que o celular dá uma engasgada. A chamada conecta rápido, o áudio vem limpo, e pronto: vida normal.
Só que, por trás desse conforto, existe um truque de engenharia bem elegante. A ligação “clássica” do mundo 2G e 3G era um circuito dedicado, como se a rede reservasse uma faixa exclusiva para você do início ao fim. No 4G e no 5G, a filosofia muda. A voz passa a ser tratada como dados. É aí que entra um dos temas mais fascinantes da telefonia moderna: VoLTE, VoNR e o coração de tudo isso, o IMS.
Vou te levar por esse caminho com calma, como quem abre uma central telefônica por dentro e vai mostrando as salas. Tem nome estranho, tem sigla, tem detalhe chato. Só que, quando as peças se encaixam, dá uma sensação boa de entender o que realmente acontece quando você aperta o botão verde.
Uma ligação em 4G não é só uma ligação

Ela é um serviço IP que precisa parecer simples
No LTE, a rede foi desenhada para ser, essencialmente, um mundo de pacotes. Isso melhora eficiência, capacidade e flexibilidade. O problema é que voz tem manias.
Voz não gosta de atraso. Até dá para assistir a um vídeo com alguns segundos de buffer, mas conversar com alguém com atraso de 400 ms vira aquela sobreposição desconfortável. Voz também não gosta de variação de atraso, o tal do jitter. E não gosta de perder pacote, porque perda vira aquele áudio “robótico” que irrita na hora.
Então a rede precisa fazer duas coisas ao mesmo tempo:
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transportar voz como dados
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tratar esse tráfego com privilégios, como se fosse “especial”, porque ele é
Esse “como” é onde o IMS entra, junto com QoS, codecs, sinalização SIP e um punhado de mecanismos de continuidade.
IMS, o maestro que organiza a festa
Sem ele, a voz em 4G e 5G seria uma colcha de retalhos
IMS é a sigla para IP Multimedia Subsystem. Pensa nele como uma camada de controle e serviços para comunicações IP, criada para permitir chamadas, vídeo, mensagens e serviços relacionados de forma padronizada.
Ele não é um servidor só. É um conjunto de funções. E aqui vale uma imagem mental: IMS é como um aeroporto. Você não diz “o aeroporto me embarcou”. Quem embarca é o check-in, a segurança, o portão, o controle de tráfego, o sistema de bagagem. IMS tem essa vibe.
Algumas funções aparecem muito quando o assunto é voz:
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P-CSCF: o primeiro ponto de contato do celular com o IMS. Dá para imaginar como o “guichê de entrada”.
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I-CSCF: um roteador inteligente de chamadas dentro do domínio do operador.
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S-CSCF: o cérebro do controle de sessão. Decide políticas, registra o usuário, aplica regras.
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HSS ou UDM: onde moram dados do assinante e autenticação, como se fosse o cadastro mestre.
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AS (Application Servers): serviços como caixa postal, conferência, regras especiais, etc.
Quando você liga, não é só áudio indo e voltando. Primeiro acontece uma conversa de controle para montar a sessão. Essa conversa é feita, na maioria dos casos, com SIP.
SIP em linguagem de gente
É como combinar a chamada antes de falar
SIP (Session Initiation Protocol) é um protocolo de sinalização. Ele não carrega o áudio em si. Ele combina o encontro.
É como mandar mensagens assim:
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“Oi, quero falar com o número X”
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“Beleza, estou tocando aqui, já já respondo”
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“Atendeu, vamos usar tal codec, em tal porta, com tal prioridade”
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“Encerramos, obrigado”
O áudio mesmo costuma ir por RTP (Real-time Transport Protocol). Então, simplificando sem perder o sentido:
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SIP monta e desmonta a chamada
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RTP carrega a voz
O IMS orquestra isso, garantindo autenticação, política e interconexão com outros mundos, como a telefonia tradicional.
Onde entra o VoLTE de verdade
Voz sobre LTE é IMS mais rádio mais regras de qualidade
VoLTE é o nome comercial para voz em LTE com IMS. A chamada é IP, mas a rede LTE oferece um recurso essencial: QoS com portadores dedicados, para dar prioridade à voz.
No LTE, existe o conceito de bearer, um “canal lógico” com características definidas. Para dados comuns, o celular usa um bearer padrão. Para voz, a rede cria um bearer dedicado com baixa latência e prioridade.
Na prática, isso evita que a sua chamada fique refém do download do colega do lado, ou daquele pico de upload do grupo de mensagens.
E aqui aparece um ponto menos óbvio, mas delicioso de entender: o rádio LTE não é só potência de sinal. Ele é agendamento de recursos no tempo, como uma fila organizada em milissegundos. Voz precisa entrar nessa fila com privilégios.
Codecs, o detalhe que muda o som da sua vida
Por que algumas ligações parecem rádio e outras parecem estúdio
Quando você fala, sua voz vira um sinal digital. O codec é quem comprime e empacota esse áudio para caber na rede, com o menor impacto possível.
No mundo VoLTE, dois nomes aparecem bastante:
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AMR-NB (narrowband): voz com banda mais estreita, som mais “telefônico”
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AMR-WB (wideband): o famoso HD Voice, som mais natural e aberto
O salto do wideband é perceptível porque mais frequências da fala são preservadas. Não vira música, mas dá aquela sensação de presença. Quando alguém diz que VoLTE tem áudio melhor, normalmente está falando disso, além de uma rede mais estável e com menos quedas.
E tem uma sutileza: a chamada negocia codec. Não é “o celular escolhe sozinho”. Ele oferece opções, a rede responde, e os dois concordam.
O que acontece quando você sai do 4G no meio da ligação
A parte que quase ninguém vê e que precisa funcionar sempre
Você está numa ligação VoLTE, andando pela rua. O LTE vai sumindo. Em 2G e 3G, voz era nativa. Em 4G, é IP. Então a rede precisa manter a chamada viva ao mudar de tecnologia.
Aí entram mecanismos clássicos de continuidade, como o SRVCC (Single Radio Voice Call Continuity). A ideia é simples de explicar e trabalhosa de executar: transferir uma chamada IMS em andamento para o domínio de circuito do 3G ou 2G sem você perceber.
O celular, que tem um rádio só na maioria dos casos, não pode “falar” com duas redes ao mesmo tempo por muito tempo. Então a rede coordena uma passagem rápida, como trocar o carro de uma estrada para outra sem parar o tráfego.
Esse tipo de engenharia é o motivo pelo qual muita gente nem percebe que o 4G caiu no meio da chamada. Quando dá errado, você percebe na hora. Quando dá certo, você nem lembra que isso existe. E essa é a maior prova de que funciona.
Chamadas no 5G têm um nome próprio
VoNR, a voz nativa em New Radio
No 5G, a voz “ideal” é VoNR, Voice over New Radio. O princípio é o mesmo: IMS continua sendo o núcleo de serviço. O áudio continua sendo mídia em IP, negociada e controlada por SIP, com RTP carregando voz. O que muda é a rede de acesso, agora NR, e o core 5G com suas funções.
Só que o 5G real do dia a dia é cheio de transições. Muitos operadores lançaram 5G inicialmente em modo NSA, onde o 4G ainda é âncora. Em vários cenários, o celular está em 5G para dados, mas a voz cai para 4G (VoLTE) quando você liga. Isso pode acontecer de maneiras diferentes:
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fallback para LTE para fazer a chamada
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uso de VoLTE mesmo com dados em 5G
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VoNR quando a rede 5G está completa e configurada para voz
O detalhe importante é que, do ponto de vista do usuário, tudo continua sendo “fiz uma ligação”. Do ponto de vista da rede, é quase um jogo de estratégia: escolher a rota que garante qualidade e compatibilidade.
Uma tabela para dar chão ao que estamos falando
| Conceito | Onde aparece | Para que serve | O que você sente na prática |
|---|---|---|---|
| IMS | 4G e 5G | Controlar chamadas e serviços multimídia em IP | Ligações rápidas, serviços padronizados |
| SIP | 4G e 5G | Sinalização da chamada, negociação de sessão | Menos tempo para completar a chamada |
| RTP | 4G e 5G | Transporte do áudio em tempo real | Voz fluida quando a rede está bem |
| QoS / bearer dedicado | LTE e também conceitos equivalentes no 5G | Priorizar voz com baixa latência | Menos cortes, menos robô na voz |
| SRVCC | Cenários com 2G/3G ainda presentes | Continuidade ao sair do 4G | Menos quedas ao se mover |
| VoLTE | LTE | Voz sobre LTE via IMS | HD Voice, conexão mais rápida |
| VoNR | 5G NR | Voz sobre 5G via IMS | Tendência de melhor latência e eficiência |
Por que a ligação conecta mais rápido no VoLTE
E por que isso às vezes falha em momentos esquisitos
Quem viveu a era 3G lembra. Você ligava, o telefone demorava mais para completar, às vezes caía para 2G para “garantir voz”. Com VoLTE bem implementado, a chamada costuma conectar mais rápido porque o processo de estabelecimento e a rede IP estão otimizados para isso.
Quando falha, geralmente aparece como:
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ligação que demora para chamar
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chamada que completa, mas fica muda por um instante
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queda para 3G/2G em regiões com 4G fraco
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chamadas que não sustentam movimento, em áreas de transição
Não é só culpa do sinal. Pode ser política de rede, configuração de QoS, interoperabilidade entre fornecedores, roteamento IMS, ou até suporte parcial de recursos no aparelho.
E tem uma camada que as pessoas esquecem: interconexão entre operadoras e roaming. Sua chamada pode começar linda no seu operador e virar outra coisa quando atravessa domínios. A padronização existe justamente para reduzir esse caos, mas o mundo real tem arestas.
Emergência, localização e aquela parte séria do assunto
Onde a rede não pode improvisar
Chamadas de emergência não podem depender de sorte. O IMS tem mecanismos específicos para sessões de emergência, e o core 4G/5G precisa sinalizar suporte e permitir que o terminal priorize o que for necessário.
Aqui entram integrações com localização, políticas de prioridade e roteamento especial. Mesmo quando o celular não está plenamente registrado como um usuário comum, existem fluxos definidos para permitir a chamada.
É o tipo de coisa que ninguém quer testar na prática, mas que precisa estar impecável. Quando você entende isso, começa a olhar para telefonia como infraestrutura crítica, não como um app.
Um jeito divertido de fechar essa história
A ligação moderna é uma coreografia
Se eu tivesse que resumir tudo em uma imagem, eu diria que uma chamada VoLTE ou VoNR é uma coreografia em tempo real.
O celular entra na rede, autentica, ganha privilégios, negocia parâmetros. O IMS organiza a sessão. A rede cria um caminho com prioridade. A voz vira pacotes, atravessa elementos de controle, chega ao outro lado, e volta. Enquanto isso, você anda, muda de célula, muda de tecnologia, e a rede tenta fazer com que nada pareça mudar.
A parte bonita é que isso funciona na maior parte do tempo, mesmo com milhões de pessoas falando ao mesmo tempo. E quando você pega um celular antigo, ou força o aparelho para 3G, dá para sentir que é outra era. Não só na velocidade. No jeito como a rede pensa.






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