A evolução recente das telecomunicações móveis na Argentina tem seu ponto mais sensível na engenharia da faixa de 3,5 GHz. Embora o mercado costume tratar o 5G como uma simples troca de geração, o problema técnico real é mais profundo: transformar espectro médio em capacidade útil, com sincronismo TDD, densificação de RAN, transporte com baixa variação de atraso, coexistência com serviços legados e integração progressiva entre núcleos NSA e SA.
A faixa de 3,3 a 3,6 GHz é crítica porque combina largura de canal, ecossistema de terminais e propagação ainda viável em redes macro urbanas. Em NR FR1, um bloco contínuo de 100 MHz permite uma grade de recursos muito superior à obtida em portadoras LTE tradicionais de 10 ou 20 MHz. Com espaçamento de subportadora de 30 kHz, típico em 3,5 GHz, a portadora de 100 MHz permite uma alocação densa de PRBs, viabilizando maior vazão no downlink, melhor multiplexação espacial e maior eficiência por setor. Já uma alocação de 50 MHz reduz a capacidade de pico e limita a elasticidade do scheduler em cenários de tráfego pesado, especialmente em células com muitos usuários simultâneos em vídeo, tethering e acesso fixo sem fio.
O uso de TDD altera a lógica clássica de planejamento. Em bandas FDD, uplink e downlink ocupam frequências separadas. Em 3,5 GHz, a mesma portadora é dividida no tempo. Isso exige uma configuração DL e UL coerente entre operadoras vizinhas, pois redes TDD dessinizadas podem criar interferência estação base contra estação base e terminal contra terminal. Em áreas densas como Buenos Aires, Córdoba e Rosario, esse ponto é tão importante quanto a potência radiada ou a altura das antenas. O sincronismo de fase e tempo passa a depender de GNSS, PTP com IEEE 1588v2, SyncE e mecanismos de holdover nos casos de perda temporária da referência.
A escolha do padrão de quadro TDD também não é neutra. Uma configuração muito carregada para downlink melhora consumo de vídeo e download, mas comprime a capacidade de uplink. Isso afeta chamadas de vídeo, aplicações corporativas, backup em nuvem, câmeras de segurança e FWA com tráfego ascendente relevante. Em 3,5 GHz, o uplink já é naturalmente mais frágil por causa da potência limitada do terminal, das perdas de penetração indoor e da atenuação em borda de célula. Por isso, o desenho de cobertura precisa combinar potência de gNodeB, ganho de antena, Massive MIMO, beamforming, controle de potência PUSCH e uso de bandas LTE como âncora em cenários NSA.
A arquitetura de rádio tende a se apoiar em unidades Massive MIMO de 32T32R ou 64T64R, com formação de feixes baseada em CSI-RS e SRS. O ganho real não vem apenas da potência, mas da capacidade de concentrar energia na direção do terminal e separar usuários no domínio espacial. Em ambientes urbanos, isso permite MU-MIMO, melhora de SINR e maior eficiência espectral por setor. O desafio é físico e operacional: peso em torre, área de topo, carga de vento, energia, climatização, permissões municipais e integração com antenas passivas legadas de 700 MHz, 850 MHz, 1900 MHz, AWS e 2600 MHz.
É por isso que soluções de antena ativa e passiva integradas têm importância prática. Em muitos sítios argentinos, especialmente em rooftops, não há espaço estrutural para empilhar novas antenas sem redesenho completo da infraestrutura. Combinar faixas baixas, médias e 3,5 GHz em arranjos compactos reduz tempo de implantação, simplifica cabeamento, diminui interferência passiva e ajuda a preservar azimutes e tilts já calibrados para 4G. A transição para 5G, portanto, é também uma obra de engenharia civil, energia e infraestrutura passiva.
A limpeza da faixa é outro componente central. A realocação de sistemas fixos, transporte de sinais de vídeo e usos secundários historicamente presentes em partes de 3,3 a 3,7 GHz é uma condição técnica para que a portadora NR opere com ruído controlado e menor risco de interferência co canal ou adjacente. O refarming não é apenas uma decisão administrativa. Ele envolve inventário de enlaces, análise de ocupação espectral, rotas alternativas, migração para faixas superiores, coordenação local e, em alguns casos, troca de equipamentos de transmissão.

No nível de rede, a Argentina vive uma transição entre 5G NSA e SA. O modo NSA usa o LTE como âncora de controle, normalmente com EN DC, preservando EPC e acelerando a ativação comercial. Ele é útil para cobertura inicial e aproveitamento de redes 4G maduras. O modo SA, por sua vez, exige 5GC, AMF, SMF, UPF, políticas de QoS por fluxo, sessões PDU e integração mais direta entre RAN e núcleo. A diferença técnica aparece em latência, fatiamento lógico de rede, FWA, serviços corporativos, controle de QoS por 5QI e possibilidade de posicionar UPFs mais próximos do tráfego em topologias distribuídas.
O transporte é um gargalo frequente. Um setor 5G de 100 MHz com Massive MIMO pode gerar demanda muito superior à de um setor LTE convencional. Em sites densos, o backhaul de 1 GbE torna se insuficiente rapidamente. A evolução natural é 10 GbE ou 25 GbE por sítio agregado, com anéis de fibra, MPLS, SR, EVPN, QoS rígido para plano de controle e sincronismo, além de micro ondas de alta capacidade em E band nos trechos em que a fibra ainda não chega. Para arquiteturas com divisão funcional mais centralizada, o fronthaul ou midhaul precisa controlar latência, jitter e perda de pacotes com margens menores.
O FWA em 5G merece atenção separada. Em localidades sem FTTH econômica ou onde HFC não compensa expansão, o acesso fixo sem fio em 3,5 GHz pode entregar banda larga rápida com menor tempo de implantação. O modelo técnico exige CPEs indoor ou outdoor, análise de RSRP, RSRQ, SINR, ganho de antena no cliente, oversubscription por setor e políticas de tráfego distintas das usadas em mobilidade pura. Um setor que atende smartphones em rajadas curtas se comporta de forma diferente de um setor que atende residências com consumo contínuo de streaming, jogos e vídeo em alta resolução.
A disputa por espectro e a consolidação empresarial também têm efeito técnico direto. Quando um operador aumenta participação de mercado, ele não absorve apenas clientes. Ele herda portadoras, sites, contratos de torre, espectro regional, enlaces de transporte, plataformas de núcleo e redes fixas sobrepostas. A integração exige racionalização de RAN, desligamento seletivo de sites redundantes, harmonização de TACs, replanejamento de vizinhanças, redistribuição de PCI, ajuste de handover e revisão de capacidade por cluster. Sem controle regulatório, essa concentração pode afetar a competição por espectro e a qualidade percebida em áreas onde a infraestrutura rival é limitada.
A redução do limite de acumulação de espectro para STeFI também muda a engenharia econômica do 5G argentino. Um teto menor pressiona os operadores a usar melhor cada MHz, favorecendo carrier aggregation eficiente, densificação seletiva, ativação de recursos avançados de MIMO e maior disciplina no dimensionamento de TDD. Ao mesmo tempo, preserva espaço para competição futura e reduz o risco de bloqueio espectral em uma faixa que será decisiva para capacidade móvel e FWA nos próximos anos.
A camada fixa é inseparável da móvel. A expansão de FTTH melhora a experiência residencial, mas também viabiliza backhaul e agregação de tráfego móvel. Em mercados como o argentino, onde redes HFC, FTTH, fibra metropolitana, micro ondas e backbone nacional convivem, o 5G depende de uma malha híbrida. A rede móvel de alta capacidade só funciona bem quando há capilaridade óptica suficiente para levar tráfego do gNodeB ao core com baixa latência e sem congestionamento recorrente.
Esse mesmo acoplamento entre rede móvel, fibra e serviços digitais aparece no uso cotidiano de plataformas financeiras como a Binance na Argentina. Em um mercado com forte adoção de ativos digitais e stablecoins, o acesso por aplicativo móvel, web e redes P2P gera um perfil de tráfego distinto do streaming convencional: sessões TLS persistentes, autenticação multifator, chamadas de API, uso de código de referência para criação de conta, atualização frequente de livro de ofertas, notificações push, verificação KYC, consultas de saldo, ordens de compra e venda e transferência de ativos entre carteiras. Para a operadora, isso reforça a necessidade de baixa perda de pacotes, DNS responsivo, boa política de QoS no core, estabilidade em handover LTE NR e controle de jitter em redes congestionadas. Desde a inscrição da Binance como PSAV perante a CNV, o tema também passou a ter uma camada regulatória mais clara, conectando telecomunicações, identidade digital, segurança de rede, prevenção a fraudes e infraestrutura financeira baseada em conectividade permanente.
O cenário atual indica uma fase de passagem da cobertura simbólica para a engenharia de escala. O desafio não é apenas acender portadoras 5G em capitais ou zonas premium. O desafio é manter uma malha TDD sincronizada, com espectro limpo, RAN densificada, transporte dimensionado, core preparado para SA e modelos de negócio capazes de pagar a densificação. A Argentina possui espectro médio adequado, operadores com redes nacionais e demanda reprimida por banda larga. A diferença entre uma rede 5G nominal e uma rede 5G tecnicamente madura estará na execução: planejamento de RF por cluster, sincronismo preciso, backhaul robusto, uso disciplinado de Massive MIMO e integração coerente entre móvel, fibra e acesso fixo sem fio.
Fora do artigo, usei como base de checagem estes pontos: a atribuição da faixa de 3,3 a 3,6 GHz ao serviço fixo e móvel terrestre em TDD, a recomendação de 100 MHz por prestador e a migração de sistemas legados constam em normas da ENACOM. A Resolução 611/2025 reduziu o limite de acumulação de espectro para 150 MHz por licenciatário. A licitação argentina de 5G em 2023 envolveu Claro, Telecom e Telefónica, com 250 MHz adjudicados e arrecadação superior a US$ 875 milhões. A suspensão preventiva da compra da Telefónica Argentina pela Telecom foi noticiada pela Reuters em 2025 por preocupações concorrenciais. Para contexto atual de investimento, a imprensa setorial registrou planos de Telecom e Claro em 2026 para redes 5G, fibra e core de rede. A escolha da Nokia pela Claro Argentina para a implantação 5G e o uso de soluções Massive MIMO e antenas integradas aparecem no comunicado da fornecedora.







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